segunda-feira, 21 de junho de 2010

MEMÓRIA CARRIS: UMA NOVA ETAPA

Depois de alguns meses sem blogadas, voltamos de cara nova.
A Memória Carris está iniciando uma nova fase.



A companhia Carris Porto Alegrense é um patrimônio urbano. Sua trajetória está diretamente relacionada com a história da nossa capital, assim como com a vida dos porto-alegrenses. Ou seja, essa história centenária faz parte das memórias coletivas e individuais da nossa cidade. É por essa representatividade que, atualmente, estamos desenvolvendo um projeto para que as memórias dessa empresa sejam preservadas, bem como divulgadas.



Desde 1989, a história da Carris é salvaguardada em um ônibus, um modelo monobloco de 1984 – Museu Itinerante Memória Carris. O veículo que abriga esse espaço de memória é o ônibus mais antigo que permanece na Cia. Sua estrutura é a monumentalização de um período da história dessa empresa, bem como de Porto Alegre. Percebemos esse veículo como uma peça museológica. Por esse motivo necessita de cuidados específicos, sendo assim, interrompemos suas atividades.



Para preservar e difundir as histórias dessa empresa estamos organizando seu acervo. Concomitantemente, pretendemos desenvolver projetos que valorizem a memória dos atores sociais que fazem parte desta trajetória centenária. Pretendemos que esse seja o início de um trabalho que dará origem a um espaço de memória, com condições adequadas para abrigar o Memorial da empresa de transporte coletivo mais antiga do Brasil, em atividade.



Seguiremos escrevendo para compartilhar as etapas desse processo. Aproveitamos para lançar um convite a todos: venham construir uma história da qual você faz parte. Participem deste espaço!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010


Inicio esta blogada me desculpando pelo período de ausência. Já comentamos neste espaço sobre questões referentes à fugacidade do tempo, da corrida que estabelecemos constantemente contra o relógio. Acredito que esta percepção é decorrente da atribulação de atividades que reunimos no dia a dia, o acúmulo de tarefas acabam alterando a noção de tempo. Fato que se intensifica em determinados períodos, como nos finais de ano. Não pretendo com isso justificar a falta de blogadas no mês de novembro e dezembro, apenas propor uma reflexão sobre como muitas vezes acabamos sendo controlados pelo tempo, ou seja, nos tornamos seus reféns.

Assim, mais um ano se inicia e ficamos com a sensação que o anterior passou “voando”. Tenho esta percepção em relação às visitas que foram realizadas com o Museu Itinerante Memória Carris nas escolas e eventos da Capital nesse ano que findou. Esta impressão é intensificada por alguns fatores que fizeram de 2009 um período atípico para o Memória, tais como a Gripe A e alguns problemas estruturais do Museu. Estes empecilhos acabaram por reduzir os índices de visita, no entanto, seu caráter itinerante permitiu que cumpríssemos o papel de descentralizar cultura e educação. Duas premissas que em tese deveriam ser de acessibilidade universal, todavia, acabam muitas vezes sendo sonegados da população.

Será que conhecemos nossos direitos? Como questionar? Como reivindicar? Em que tempo entre tantas atividades e obrigações diárias? Como participar efetivamente da sociedade? Não apenas como sujeitos passivos a mercê das ações de um determinado grupo, que através do nosso voto legitimam suas ações. Mas ativos, participando efetivamente das construções sociais. Como despertar esta consciência em meio à corrida que estabelecemos contra o relógio entre tantas atividades? Acredito que a via principal é a educação. O acesso ao ensino de qualidade a todos é o nosso pedido da virada de ano.
Um Feliz 2010 a todos!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Prêmio COMPAC 2009



Nosso Museu está de Parabéns! Apesar de enfrentarmos uma série de dificuldades referentes às questões estruturais, principalmente nos períodos chuvosos, o Memória foi homenageado. O Museu Itinerante Memória Carris recebeu o Prêmio COMPAHC 2009 – Mérito ao Patrimônio, solenidade que ocorreu na última quarta-feira, no Paço Municipal. Ao lado de 24 homenageados, entre personalidades, empresas e instituições nosso Museu esteve presente.

Há 21 anos um ônibus monobloco da Mercedes Benz, de 1984, abriga a memória da empresa mais antiga de transporte coletivo no Brasil, em funcionamento – a Companhia Carris Porto-Alegrense. Como já foi abordado em postagens anteriores, a Carris está diretamente relacionada ao desenvolvimento urbano da nossa Capital. A chegada dos primeiros bondes (1873) – a tração animal – e, posteriormente, com o advento da eletricidade – os Elétricos (1908) – fizeram com que Porto Alegre fosse perdendo suas antigas características rurais. Acrescentamos a esta trajetória os ônibus, que, ao contrário dos bondes, continuam pelas ruas garantindo a mobilidade urbana aos porto-alegrenses. A Carris e a cidade de Porto Alegre são memórias indissociáveis, pois suas histórias são “trilhadas” por caminhos simbiônticos. Quando se fala em Carris, inevitavelmente, fala-se em Porto Alegre.

O trabalho desenvolvido pelo Museu abarcou equipes distintas que possibilitaram este ano, após atingir sua “maior idade”, esta belíssima homenagem. Tenho certeza que este reconhecimento se faz presente pelo trabalho dessas diferentes personagens que transitaram pelos trilhos da história do transporte. Aproveito-me da atual condição de monitora do Memória e de administradora deste blog, para parabenizar com maior veemência o colaborador Eloy. Nosso querido Chefia, que há muito tempo faz parte desta história. Ao levar o Memória aos diversos cantos da cidade, ele vai “guiando” a educação e a cultura para pessoas que, na maioria das vezes, estão muito distantes dessas premissas que deveriam ser a base para a nossa sociedade.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Gremio Football Porto-Alegrennse - 106 anos de histórias

Pessoal, conforme comentei na postagem anterior, este espaço está aberto para receber os textos dos colegas que estão realizando estágio aqui no Museu. Abrimos com um texto do Marcos Luft(UFRGS). Particularmente, adorei a temática!Obrigada, Marcos.

“Todas as músicas tem a sua história. Quase sempre falam ao coração. Esta também fala ao coração: ao coração do mundo desportivo do Rio Grande do Sul”.
Assim, o jornal Diário de Notícias se referia à primeira vez que o hino do Grêmio de Foot-ball Porto-Alegrense seria tocado ao público. Hoje, 15 de setembro, o tricolor dos pampas completa 106 anos de histórias e títulos. E quando o torcedor ouve “Até a pé nós iremos, para o que der e vier”, se emociona e relembra as glórias passadas. O que pouca gente sabe é que esses versos têm relação com um acontecimento da história do transporte coletivo de Porto Alegre.
O jogo era Grêmio x Cruzeiro, valendo pelo 1º turno do campeonato da cidade. À época, um dos grandes clássicos do estado. A data era 21 de junho de 1953, domingo. O tricolor precisava vencer para ter chances de alcançar o Internacional na tabela, já que tinha perdido na rodada anterior para o Renner (que seria campeão estadual no ano seguinte). O local era o Estádio da Baixada, atualmente o Parcão (o Olímpico só seria inaugurado no ano seguinte). Só que haveria um grande problema para se chegar ao estádio.
Na sexta-feira, dia 19, os motoristas e cobradores da empresa SOUL (que à época fazia algumas linhas da zona norte) entraram em greve. Queriam aumento de salários. Na época, a inflação era grande. Diziam que “na maioria são homens que possuem os encargos de família e não podem consentir que o aumento de seus salários, presentemente irrisórios, seja retardado e não passe de promessas”. A resposta da prefeitura foi cassar a concessão das linhas da SOUL na zona norte. A Companhia Carris, na época empresa particular, pertencendo à norte-americana Bond & Share, contribuiu, para tentar normalizar a situação, reforçando as linhas de bondes dos bairros Floresta, Navegantes e São João.
No sábado, dia 20, foi a vez da empresa Teresópolis. O motivo era o mesmo: aumento de salários. “Somos chefes de família e não queremos prejudicar o povo com nossa parede [nome dado à greve naquele tempo]”. Membros da SOUL e da Teresópolis passaram a tentar convencer funcionários de outras empresas a aderirem à greve. Uma boa parte deles se solidarizou aos grevistas, complicando o transporte coletivo de Porto Alegre. O motivo continuava sendo o mesmo: “reivindicando, junto aos empregadores, uma melhoria de salários, em virtude dos seus orçamentos já não comportarem as despesas atinentes aos encargos da família, dado o crescente aumento do custo de vida, observado dia a dia”.
No domingo, dia do jogo, eram 122 carros parados nas garagens (haviam 239 em toda a cidade). Era uma das maiores greves já então vistas. As linhas São João, Glória e Teresópolis, da Carris, aderiram à greve, mas a empresa não aderiu totalmente. Outras linhas operaram com menor capacidade, já que a prefeitura e algumas empresas deslocaram ônibus para cobrir as linhas onde trabalhavam os grevistas. Uma dessas linhas prejudicadas era a Independência, servida por ônibus e bonde. Justamente a que os gremistas precisavam para chegar ao estádio (além da linha especial Futebol, como há atualmente). Os coletivos foram e voltaram superlotados. Muitos até a pé foram, originando a primeira frase do hino gremista.
Na terça-feira, dia 23, a greve foi encerrada, com a promessa de aumento de 70% nos salários dos motoristas, e 60% no dos cobradores. Essa greve provocou uma reação da prefeitura, que resolveu encampar (ou seja, assumir o controle) todas as empresas incapazes de cobrir esse aumento e de investir na melhoria de seus carros. Em 1953, diversas empresas foram encampadas pela prefeitura, inclusive a Carris.
Quanto ao jogo, que segundo a imprensa, foi fraco, o Grêmio, desfalcado do craque Tesourinha, que havia sofrido um acidente de carro dias antes, venceu por 1x0, com gol de Milton. O Grêmio jogou com: Sérgio, Pipoca e Orli; Hugo, Laerte II e Joni; Milton, Gringo, Mujica, Camacho e Torres. Já o Cruzeiro veio com: Deoli, Machado e Rui; Laerte III, Casquinha e Xisto; Tesourinha II, Hofmeister, Orceli, Nardo e Jarico.
Após o jogo, o repórter do jornal Diário de Noticias, Wilson Muller, pediu a Lupicínio Rodrigues que composse uma marcha para o cinqüentenário do clube. Nos dias (ou melhor dizendo, nas madrugadas) seguintes, se encontraram Lupicínio (ou Lupi), Ruy Silva, o escritor, Campanella, orquestrador, e Silvio Luiz, cantor da Rádio Farroupilha. No dia 16 de agosto, já pelo 2º turno do campeonato da cidade, numa vitória de 2x0 sobre o Aimoré, de São Leopoldo, o hino foi ouvido pela primeira vez pelos torcedores, pela Rádio Farroupilha, com o som sendo reproduzido pelos alto-falantes do estádio.
E assim surgiu um dos maiores símbolos do futebol gaúcho: o hino tricolor, numa relação quase desconhecida com o transporte coletivo de Porto Alegre. Ao final de tudo, o Grêmio perdeu o 1º turno do campeonato da cidade. O campeão foi o Internacional, após empatar o Gre-Nal decisivo do dia 5 de julho por 1x1, no Estádio dos Eucaliptos.

Marco Luft

Boas vindas!

As visitas do Memória, às escolas da cidade, estão recheadas de novidades. Nosso museu está contando com a participação de uma “turma da pesada”. Marcos (UFRGS), Ben Hur (IPA) e André (IPA) que estão realizando o estágio curricular aqui na Carris. As próximas escolas, que receberem a visita do Museu, poderão usufruir das “ histórias e memórias” que esta galera irá acrescentar ao projeto.

Gostaria de expressar que estou muito feliz em poder dividir esta experiência com colegas que estão trilhando a sua formação, assim como eu. Posso assegurar que o dia-a-dia com o Museu Itinerante Memória Carris é, no mínimo, uma vivência enriquecedora, em todos os aspectos. Durante o trabalho, a cada atividade exercida, acrescento elementos que vão contribuindo para o meu amadurecimento profissional e pessoal. A convivência com crianças e adolescentes nas escolas revela-se uma “caixinha de surpresas” a cada visita. É incrível como estamos fadados a eternos aprendizes. A princípio, chego às escolas, na qualidade de monitora, para levar informação, no entanto, esta prática torna-se recíproca. A cada encontro novas experiências, “um novo retalho a ser tecido na gigante colcha da vida” . Quanto ao trabalho de pesquisa, devo confessar que 137 anos de empresa exige que, às vezes, nos transformemos em “ratinhos”, ou seja, entrar num arquivo e esquecer que há vida fora daquelas paredes (risos). O que dizer sobre este blog e o Volante (jornal interno da Carris, no qual escrevo uma coluna mensal)? Cada texto uma barreira vencida, acho que é mais ou menos assim que percebo este grande desafio. Sem falar nos colegas da Carris que convivo semanalmente, suas particularidades compõem uma pluralidade extremamente interessante de se partilhar.

A participação do André, do Ben Hur e do Marcos, com certeza, será mais um momento que possibilitará uma belíssima troca de experiências. Além da participação nas escolas, este espaço estará aberto para que eles possam postar seus textos, dividindo com a gente suas “histórias e memórias”.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

"Saudade dos carnavais de antigamente...De tanta gente no bonde"



Neste blog comentamos, seguidamente, sobre a intimidade entre os porto-alegrenses e os bondes, durante o longo período que este meio de transporte circulou pelas ruas da Capital. Esta relação é percebida pela constante presença desses veículos e de seus tripulantes (Motorneiro e Condutor) nas crônicas e músicas gaúchas. Como não poderia deixar de ser, no carnaval lá estavam eles. Muitas marchinhas faziam referência aos Elétricos e seus personagens.

No entanto, não foi só em Porto Alegre que esses veículos demarcaram seu espaço no cenário cultural. Sendo o bonde uma figura tão popular, foi protagonista de muitas músicas de sucesso nas mais diferentes localidades em que esteve demarcando o urbano. Canções que abarcavam o cotidiano da população com os Elétricos. Retratos das mais singelas viagens, com suas paradas habituais, além da saudação rotineira do gentil senhor ao motorneiro. Outras letras retratavam ainda cenas mais pitorescas, como uma “cantada” na moça que estava ao lado, o jovem que despistava o condutor e seguia seu destino sem pagar a passagem ou, então, as traquinagens da criançada que garantiam sua diversão ao incomodar o “seu” condutor e o “seu” motorneiro.


Em postagens anteriores abordamos essa relação da música com os bondes, falando sobre dois grandes mestres da música popular brasileira: Octávio Dutra (gaúcho) e Noel Rosa (carioca). Acima temos a partitura de uma marcha do carnaval de 1938. A autoria deste sucesso da década de 1930 é da dupla caipira Alvarenga e Ranchinho. Suas letras satirizavam os políticos da época, o que acabou fazendo da dupla, ocasionalmente, alvo de perseguições.

No mesmo ano J. Casacata e Leonel Azevedo brilharam com a marchinha Não Pago o Bonde:

“Não pague o bonde iaiá
Não pague o bonde ioyô
Não pague o bonde
Que eu conheço o condutor”.
Os festejos de 32, Noel Rosa e Eduardo Souto lançaram a música Palpite:
“Palpite
Palpite
Nasceu no crâneo de quem teve meningite
Num dia desses perguntaste ao condutor
Se os bondes passavam na rua do Ouvidor”.
A marcha Zizinha de José Francisco de Freitas fez sucesso no carnaval de 1926, abordando a bolinação nos Elétricos, fato corriqueiro na época:
“Noutro dia num bondinho
Um coronel já bem velhinho
Deu-me um beliscão
Pegou-me na mão.”

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Mais de um século de histórias...

Na última Quinta feira, dia 30 de julho, o poeta Mario Quintana completaria 103 anos. Gaúcho de Alegrete adotou Porto Alegre para sua morada, dando início a uma relação recíproca de admiração entre a cidade e o poeta. Através do seu legado podemos perceber a forma simples e profunda da sua poesia abarcar as belezas prosaicas, que muito passam despercebidas na vida frenética da atualidade. Acompanhando de perto as mudanças da Capital, ancoradas na busca pelo progresso, Quintana sempre se posicionou resistente as reformas que iam, pouco a pouco, transformando a simplicidade da cidade pequena, para complexa metrópole.

Mario Quintana era um apaixonado por bondes, assim como muitos porto-alegrenses. Embaralhada num sentimento nostálgico, sua poesia demonstra que os Elétricos ficarão eternizados no imaginário da cidade. Através das lembranças daqueles que conviveram com esse meio de locomoção, os bondes estabelecem sua permanência. Mais do que uma forma de se transportar, estes veículos, que trafegaram pelas ruas de Porto Alegre por quase um século, marcaram trajetórias de vida.

Assim como Quintana, outros literatos, cronistas e compositores demonstram, através de suas obras, a representação dos Elétricos para os porto-alegrenses. Histórias e memórias que se perpetuam entre as diferentes gerações. Embora nosso poeta não esteja mais entre nós para festejar seu aniversário, a data é comemorada. O patrono da Casa de Cultura Mario Quintana foi homenageado na semana passada com uma programação especial que demonstra a imortalidade de sua obra.

Meu bonde passa pelo mercado

O que há de bom mesmo não está à venda,
O que há de bom não custa nada.
Este momento é a flor da eternidade!
Minha alegria aguda até o grito...
Não essa alegria alvar das novelas baratas,
Pois minha alegria inclui também minha tristeza

Tristeza...
Meu companheiro de viagens, sabes?
Todos os bondes vão para o Infinito!