sexta-feira, 3 de junho de 2011

“Na Carris realizei meu sonho de carregar um brasão de família: levo o brasão da família Carris por onde ando”


Já falamos aqui do trabalho que realizamos nos terminais da Carris através do programa de história oral. Nele, entrevistamos colaboradores dispostos a nos relatar um pedaço de sua trajetória na empresa. As entrevistas são diversas e abarcam antigos e novos funcionários no intuito de coletar os mais diferentes depoimentos daqueles que no seu dia a dia constroem a história da companhia.
No dia 14 de abril estivemos no terminal em frente ao shopping Praia de Belas nas linhas T5 e T2. Nesse dia, além de outros colaboradores, entrevistamos o senhor Nei Fernando de Oliveira. Nei, como é carinhosamente chamado pelos colegas, tem uma relação com a Carris que inicia na sua infância, com um sonho que só se concretizou quando ele entrou na empresa. Quando criança, Nei não sabe estimar com que idade exatamente, ele sonhava em trabalhar como motorista de uma família que ostentaria um brasão.
Dirigindo desde a infância, segundo nos relatou, trabalhou na força aérea durante oito anos. Lá formou uma banda e tocava como corneteiro para eventos oficiais. No entanto, a não realização do sonho o fez deixar esse trabalho e ir em busca de seu ideal. Dessa forma, passou pela Petrobrás, pela Copesul, como motorista da diretoria e foi dois anos motorista particular do presidente do internacional, além de trabalhar como motorista das lotações em Porto Alegre. Entretanto, seu sonho ainda não se realizara e Nei continuava em busca daquilo que para si era um objetivo de vida.
Após trabalhar em diferentes locais, Nei realizou concurso para a Companhia Carris e obteve aprovação. Ao iniciar o trabalho na linha T2, “desbravando a perimetral” que, na época, estava em construção, Nei se deu conta que aqui, na empresa, seu sonho havia se realizado. Com os olhos cheios de água e a voz embargada afirma que na Carris carrega , como motorista, o brasão de família que tanto sonhava, o brasão da família Carris.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Nos Caminhos da história oral (parte 2)


A
A história oral tem peculiaridades e desafios que lhe são próprios. Quando analisamos documentos “prontos” – escritos - penetramos em um mundo que já foi, pelo menos teoricamente, construído, antes que tivéssemos conhecimento dele. Dessa forma, nesse caso, na busca de entender o que chega até nós, buscamos o contexto social, cultural, linguístico e intelectual de certo texto. Em outras palavras, o que encontramos está “pronto”, compete a nós, pesquisadores, interpretar o que já está construído, o que já foi constituído. Não queremos aqui negar o fato que os vestígios históricos são continuamente reinterpretados pelas gerações e que novas interpretações são produzidas, mas de qualquer forma isso reflete mudanças no nosso tempo não no documento “em si”.
No caso de documentos orais as dinâmicas são muito diferentes. A primeira questão é que eles não existem antes que o pesquisador se interesse pelo tema, sem que crie o problema e a pergunta através da qual irá investigar. A entrevista é marcada pelo pesquisador, produzida por ele para utilizar em sua pesquisa. Há, dessa forma, o elemento da subjetividade presente e mais forte que no uso de documentos escritos. Além disso, embora a fonte seja oral o que produzidos é escrito. Entonação, por exemplo, não é passada no momento em que os depoimentos são transcritos. O pesquisador faz as perguntas e as respostas dependem da memória do entrevistado e de sua vontade de relatar o que viveu. Sendo a memória seletiva, é impossível lembrar sem esquecer. O que o entrevistado nos conta, geralmente, fala mais sobre si mesmo e sobre o que hoje pensa sobre o que ocorreu do que necessariamente sobre os fatos que ocorreram. Como penetrar nesses labirintos? Onde termina e começa a subjetividade? Será que o entrevistado nos fala sobre o que viveu ou sobre o que hoje pensa sobre isso?
Não existem respostas claras e precisas para as perguntas que coloquei acima. Quando trabalhamos com história oral cruzamos a linha que separa a subjetividade da objetividade. Trabalhamos com antropologia, sociologia e psicologia, tentando entrar em um mundo que foi no passado, mas que pertence a um ser que conosco divide o presente, mas que viveu algo que atualmente tentamos entender.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

18 de Maio - Dia Internacional dos Museus


Hoje comemoramos o Dia Internacional dos Museus. Com objetivo de ressaltar a importância dessas instituições para a sociedade, a data foi instituída pelo Comitê Internacional de Museus (ICOM), em 1977.
 Este momento é propício para refletirmos sobre o papel dos museus na atualidade. A partir de uma relação dialógica com a comunidade, as instituições museológicas contemporâneas são espaços multidisciplinares que trabalham com preservação, conservação, comunicação, educação, investigação, entre outras ações nas diferentes áreas do conhecimento. No entanto, para promover o desenvolvimento desses espaços museais é imprescindível à elaboração de políticas públicas. Nesse sentido, em 2009 foi sancionada a Lei nº 11.906 que criou o Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM, uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Cultura.  
            O IBRAM é um órgão muito importante para fomentar a criação de novas instituições e o desenvolvimento das já existentes, procurando melhores formas de expansão e manutenção do acervo, aumento de freqüência, arrecadação financeira, descentralização, entre outros aspectos relacionados à gestão. Dessa forma, temos uma política pública para gerenciar a área museológica no país. Todos os anos o IBRAM promove a Semana Nacional dos Museus, em celebração ao Dia Internacional A Semana é um momento no qual são desenvolvidas atividades em todo o país, este ano a temática é Museu e Memória.
No caminho de ampliar as possibilidades do nosso Museu Itinerante Memória Carris, antigamente vinculado a Assessoria de Comunicação e Marketing da empresa, foi institucionalizada, recentemente, a Unidade de Documentação e Memória Carris. Dessa forma, além de trabalhar com a divulgação da história da Cia, configura entre nossos objetivos explorar, através das memórias e histórias que a Carris compartilha com Porto Alegre ao longo de mais de um século, ações culturais, educacionais e sociais que promovam o desenvolvimento da cidadania.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Celso Russo (Programa de História Oral)


Geralmente nas terças feiras, entrevistamos antigos e novos colaboradores no intuito de conhecer um pouco mais das trajetórias individuais daqueles que diariamente vivem e configuram a Carris, seus colaboradores. Numa dessas terças entrevistamos, na sala da unidade de Compras da companhia, o senhor Celso Roberto Lopez Russo que trabalha na Ferramentaria, setor que faz parte da manutenção da empresa.
A relação de Russo com a Carris começou antes que ele ingressasse na companhia, quando tinha 14 anos e trabalhava entregando material de escritório. Costumava, nessa época, subir com o bonde a avenida Alberto Bins muitas vezes pendurado na porta como bom menino travesso. Entre as muitas histórias que relatou, cita um tio que, numa curva do bonde, bateu a cabeça no poste. Esse fato, embora nos chame a atenção atualmente era, segundo nos relatam os jornais de época, algo corriqueiro devido ao hábito que alguns transeuntes tinham de viajar nos estribos do bonde, agarrados em suas portas. Assim como outros que também entrevistamos, Russo nos falou do chamado bonde “fantasma”, uma espécie de veículo coruja que passava no início da madrugada pelo bairro glória. Quem fazia esse trajeto era um bonde “gaiola”, veículo de quatro rodas que balançava muito em cima dos trilhos, o apelido vem do fato de ser menor que os outros.            
Professor Russo, como é carinhosamente chamado, entrou na Carris em 1989 como motorista, de 1992 a 1993 tornou-se mecânico de pista, responsável pela verificação das condições dos veículos. Em 1996 ele foi emprestado para a prefeitura e desde 2009 trabalha na oficina da empresa. Celso esteve presente em vários momentos importantes na história da Carris, entre eles na intervenção da prefeitura em 1989. Russo viveu esse momento marcante para a história de Porto Alegre na “linha de frente” como motorista da Restinga. Segundo ele, um belo dia chegou à companhia e lhe avisaram que ele faria essa linha, como não conhecia a linha os próprios passageiros lhe ensinavam o caminho. De acordo com ele ainda, a Carris assumira, nessa situação, as linhas “complicadas” e reformavam na própria oficina os ônibus para que esses pudessem transitar. Assim, a partir desse momento, as outras empresas também são obrigadas a investir na qualidade dos coletivos.
Com um carinho especial pela Carris, Russo reforça o que considera pontos extremamente positivos da Companhia e da sua relação com a população, qualidade dos ônibus (que servem de modelos para outras empresas) e relação amigável entre funcionários, segundo ele: “a Carris mora no meu coração”. Essa relação com a empresa, no entanto, vai além de sua geração, de acordo com o professor seu tio-avô já havia trabalhado na Carris como eletrecista.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Nos caminhos da história oral (parte 1)



Como os leitores do blog sabem, usamos, entre outras, na Carris, a metodologia da história oral. Nosso intuito, através disso, é valorizar e, em certo sentido, resgatar parte da memória coletiva não só dos colaboradores antigos e atuais, mas também daqueles que usam o transporte coletivo e o tem como parte de suas vidas. Sendo os ônibus (e anteriormente os bondes) parte da urbe, compreender essas histórias entrelaçadas na mente e sentimento de cada cidadão é também entender a história da cidade, dos seus entornos, de suas ruas, avenidas e voltas que só conhece aquele que diariamente cruza por esses lugares.
Refletir sobre a história oral pode ser considerado também um caminho pedregoso, pois, se, por um lado, hoje ela é valorizada dentro da academia (nos referimos aqui às universidades, principalmente) por muito tempo essa história foi colocada em descrédito ou vista com maus olhos. A história oficial, a que devia estar nos livros de escola e de bibliotecas, era a do documento escrito nos arquivos do governo. Essa devia ser mapeada, analisada, estudada e escrita. A história oral era artigo de “segunda categoria” que não devia te grandes espaços no trabalho do historiador.
A própria história é periodizada tendo como eixo principal os documentos escritos. Não é a toa que o período gigantesco onde não se tem basicamente registros escritos é chamado genericamente de “pré - história”. As imagens, pinturas ruprestes e vestígios encontrados não eram, dessa forma, primeiramente, objetos de estudo do historiador. Por outro lado, a memória oral é encontrada nas tradições, nos mitos e lendas populares, ou seja, lugares que até pouco tempo não eram tidos como parte de uma verdadeira “história oficial”. Em outras palavras, embora a metodologia da história oral possa ser usada nos mais diferentes eixos da história contemporânea, ela surgiu e é usada, na maioria das vezes, com o intuito de valorizar e registrar a memória daqueles que durante muito tempo estiveram distante dos registros oficiais: o povo. Quer saber mais sobre história oral no Brasil? Entre aqui.



segunda-feira, 11 de abril de 2011

Entrevista com Luiz Fernando Sena



Como os leitores de nosso blog sabem, trabalhamos no Memória Carris com a metodologia da história oral. Dessa forma, fazemos periodicamente entrevistas com antigos (ou não tão antigos) funcionários da Carris. Temos um roteiro prévio, mas a ideia nesses momentos é deixar o entrevistado a vontade, fazendo com que ele nos relate o que, na sua percepção, é relevante ou o que, de uma forma ou outra, marcou sua relação com a empresa ao longo dos anos.
Luiz Fernando Sena foi nosso entrevistado na quinta feira (dia 07/04). Motorista da linha T9 desde que essa foi inaugurada, em 2000, Sena é funcionário há 33 anos. Passando por diversas experiências, Sena destacou em todo tempo o carinho que tem pela companhia onde fez amigos e construiu história. São três décadas de memórias e lembranças que envolvem inclusive sua vida pessoal já que seu filho hoje com 35 anos na época de sua entrada na empresa tinha dois anos.
Com grande amor à profissão, Senna já encenou peças de teatro na Semana da Consciência Negra e periodicamente promove festas na Companhia. Com grande entusiasmo ele fala de sua vida na Carris e da marca que essa deixou em sua vida. Participante de cursos periódicos e de aperfeiçoamentos, Sena procura fazer seu trabalho com dedicação e muito carinho, transportando as pessoas com responsabilidade e atenção. Segundo ele, é possível perceber, no andar diário dos veículos, a transformação nos bairros por onde transita o T9: as antigas casas deram lugar a dezenas de prédios que mudaram o design dos locais.
Além disso, muitos dos que foram seus passageiros quando crianças são hoje adultos e os filhos desses, por sua vez, andam também nos veículos dirigidos por ele. De acordo com Sena, seu filho, tal como o pai, deseja ser motorista da Companhia o que, para ele, é uma grande alegria: deixará seu legado na empresa. Na foto acimaa, imagem da cena de teatro  teatro presentada na Semana da Consciência Negra na Carris há alguns anos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

“Eu não nasci na Carris, mas eu me criei na Carris" (cont. dos textos da exposição Trajetórias Femininas)


Marília Denísia Medeiros Proença ingressou na Cia. Carris Porto-Alegrense em 1984, ocupando uma vaga de estágio na Unidade de Compras, enquanto estudava no Colégio Protásio Alves. Ao final desse período, foi admitida como Agente Administrativo, permanecendo no Setor de Compras, onde esteve durante 17 anos. Ao longo de duas décadas e meia, Denísia também trabalhou na Unidade de Administração de Pessoal (UAP) e no Sistema Interno de Melhorias da Carris (SIMC).  Há 05 anos desenvolve suas atividades atendendo aos colegas na parte de uniformes do Almoxarifado. A colaboradora recorda que passou momentos difíceis logo que começou a exercer essa função, mas, atualmente, considera o Almoxarifado “a menina de seus olhos”, local onde pretende ficar até finalizar sua trajetória na Cia. Muitas vivências e histórias compartilhadas marcam seus 26 anos de atividades na empresa, pontuadas por trocas de ideias, divergências e laços de amizades que enriquecem sua vida.  Entre tantos episódios a serem destacados, Denísia recorda com maior carinho e atenção a realização de duas gincanas em 1997 e 1998, na qual participou do grupo “Equibus”, vencedor das duas edições. O acontecimento das gincanas estava condicionado a inscrição de no mínimo 04 equipes que deveriam contemplar membros das três grandes áreas da Cia. (Manutenção, Operação e Administrativo) propiciando maior integração entre os colaboradores. As tarefas das gincanas geravam um grande envolvimento dos colegas, bem como de suas famílias que se engajavam nas brincadeiras. Momentos como esses demonstraram que a Carris não funciona apenas como uma empresa, mas também como uma grande família.