sexta-feira, 7 de julho de 2017

Memórias de um Motorneiro

     O título deste texto está incompleto... Na verdade o Sr. Pedro Carneiro Rodrigues foi condutor, motorneiro e fiscal nos bondes elétricos da Cia. Carris. Trabalhou na empresa entre 1938 e 1971, trinta e três anos, portanto, de dedicação à Carris. 
    Organizando algumas das pastas de documentação encontramos um pouco da história do Sr. Pedro aqui na empresa. Em um material de nove páginas datilografadas, o ex funcionário relembra algumas histórias de sua trajetória nos bondes de Porto Alegre. Já num primeiro momento é possível constatar que o Sr. Pedro era "muito esquentado", pois a maioria das histórias são de relatos de brigas em que ele se envolveu. Em um dos relatos o autor conta sobre uma confusão que envolveu um inspetor e um chefe de polícia. O texto tem o sugestivo nome de "Abuso de Autoridade" e encontra-se transcrito abaixo: 
 "(...) Houve um incêndio no Club de Regatas Almirante Barroso na Rua Voluntários da Pátria. Eu fiquei com o bonde transportando os passageiros (baldeação) da Rua do Parque até o fim da linha. Uma moto saiu do local do incêndio e foi pela linha do bonde, apesar da via dos outros veículos ser fora dos trilhos do bonde. Eu fui atrás da moto até a Rua São Pedro. Após a Av. Farrapos a linha do bonde é no meio da rua (linha única), daí em diante eu toquei o bonde em cima tocando o tímpano (sineta). Na parada seguinte o motoqueiro parou e eu olhei para ver se ele era normal. Ele tocou para a outra parada e veio me identificar. Eu perguntei o porquê, aí ele se identificou como inspetor de polícia e mandou eu tocar o bonde para o fim da linha. 
    No fim da linha chamou o guarda civil que cuidava dos pedestres que passavam dos bondes Florestas para o São João com baldeações. Quando o guarda chegou perto, ele me agarrou e me empurrou para fora. Eu o agarrei pelo casaco e levei-o junto, como ele ficou no ar eu bati o corpo dele contra o bonde. Mandou o guarda me prender, dizendo que eu estava resistindo a prisão e me deixou incomunicável com o guarda e chamou o camburão.
    Me levou para a delegacia na Rua Riachuelo e me deu um chá de banco de toda a tarde, até o delegado ir embora. Passei a tarde ouvindo piadas de outros policiais: 'esse é o tigrinho, o valente?' Até que chegou o chefe deles, que chamou o fiscal de viagem que foi levado por não me substituir. Expliquei o que aconteceu e ele perguntou ao cara se eu estava calmo assim como no momento. O cara disse que não, que eu parecia uma fera, queria té dar de alavanca nele. Eu disse que ele estava faltando com a verdade. Eu tinha na mão a chave de reversão e se eu quisesse agredi-lo podia, porque a chave na mão é o mesmo que uma soqueira (soco inglês), mas eu não faria isso porque ele já havia se identificado como policial. Diante do chefe ele me desafiou, que iria me encontrar e resolver o caso. 
      Eu disse ao chefe que aquele cara não podia ser policial, que ele era um arruaceiro. O fiscal me disse: 'Vamos embora, não de conversa a estes bichos". Para quê! O chefe perguntou se ele era filho de cavalo, vaca ou de outro bicho. Eu expliquei que era gíria e que gente fina era chamada de bicho pelos pobres (...)". 
   Lendo o restante das memórias do Sr. Pedro ficamos sabendo que esta não foi a única confusão que ele arrumou nos bondes.... Além das histórias das encrencas em que se envolveu, o autor também conta um pouco sobre o cotidiano da cidade naquele período. Em um dos seus textos, por exemplo, é lembrada a prática de encomendar remédios por telefone nas  farmácia e estas enviarem os pacotes pelo motorneiro. O ex motorneiro conta que eram pagas gorjetas aos trabalhadores dos bondes quando prestavam este serviço.
  São muitas as histórias divertidas presentes neste material. Em outro momento iremos publicar aqui no blog mais memórias do Sr. Pedro Carneiro Rodrigues, ex trabalhador dos bondes elétricos de Porto Alegre. 

Tripulação dos bondes em 1965. Não temos a identificação dos nomes dos funcionários. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A Carris completa 145 anos neste 19 de junho!

      Hoje é uma data muito importante para todos os amigos que acompanham as atividades do nosso setor. A Carris está completando 145 anos! São quase um século e meio acompanhando o desenvolvimento de Porto Alegre. Em todo esse tempo ocorreram inúmeras transformações na empresa, na cidade e no mundo! Criada em 1872, nossa empresa atravessou todo o século XX, um período marcado por grandes transformações tecnológicas e sociais. O transporte urbano, segmento que se insere no cotidiano das pessoas, acompanhou estas mudanças alterando suas tecnologias e buscando adaptar-se a um público que tem cada vez mais pressa. Se no início da Carris, lá no século XIX, era aceitável que os bondes puxados por burros levassem horas entre o  Menino Deus e o Centro, hoje a mesma distância pode ser feita em apenas alguns minutos.  Porto Alegre cresceu assim como a complexidade da vida. Temos que nos locomover por distâncias cada vez maiores e em um tempo cada vez menor. Buscando dar conta desta nova realidade, a Carris também se transformou, se adaptando as necessidades trazidas pelo passar do tempo.
   Assim como as transformações, as permanências também fazem parte de uma história de 145 anos. O amarelo da Carris, por exemplo, manteve-se sempre presente na identidade visual dos veículos da empresa. A cor que é uma referência para a Cia. Carris Porto-Alegrense também é um dos símbolos da Cia. Carris de Ferros de Lisboa. As duas empresas foram criadas em 1872 através de decretos assinados por D. Pedro II, na época Imperador do Brasil. Sabe-se que o amarelo foi uma das cores símbolo do Império, que tinha D. Pedro II como seu representante máximo. Acredita-se, portanto, que as duas empresas têm o amarelo como símbolo em homenagem ao antigo Imperador, responsável pela criação das empresas de transporte de Porto Alegre e Lisboa.
     Transformar-se buscando adaptar-se aos novos tempos, mas mantendo seus símbolos e suas referências. Respeitar a própria história é reconhecer o valor dos caminhos já percorridos e que nos trouxeram até aqui. Seguindo estes princípios é que a Cia. Carris chega aos seus 145 anos. Sabe-se que uma empresa que tem 145 anos interruptos de atividade tem muita história para contar, assim como existem muitas formas de contar estas histórias. Para comemorar este 19 de junho, o setor de Memória da Carris pensou em apresentar as modificações ocorridas em objetos que são corriqueiros em uma empresa de transporte público. Para tanto, foi produzida uma exposição contendo quatro linhas do tempo diferentes: uma da identidade visual da empresa, uma dos letreiros dos seus veículos, uma dos bancos de passageiros e outra das diferentes formas de se cobrar a passagem praticadas ao longo da história da Carris. Esta exposição ficará fixa na sede da Carris entre os dias 19 e 23 de junho. Após este período, ela irá itinerar pelos diferentes terminais da Carris. As datas e os horários em que a exposição estiver em cada terminal serão divulgadas em nossas redes sociais! 





     

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Pequenas histórias sobre os bondes

  Consultando o material que temos em nosso arquivo, encontramos uma pasta intitulada: "Textos Interessantes sobre Bondes". Trata-se de uma coletânea de materiais que foram reunidos tendo como ponto em comum a circulação dos bondes elétricos em diferentes cidades brasileiras. Acreditamos que estes textos foram reunidos em um momento em que o acesso à informação pela internet não era tão simples como hoje, tornando necessária a organização material de uma pasta com arquivos impressos.         
   Praticamente nenhum destes materiais tem especificada a fonte das informações, a maioria deles não tem também dados básicos como o ano em que foram escritos ou coletados. Esta situação dificulta bastante o nosso trabalho na hora de citar estas informações, mesmo assim, há relatos curiosos que iremos transcrever  para os nossos leitores. 
  Um dos dados interessantes encontrados é a origem do termo bonde, em um dos textos citados é explicado: "A palavra 'bonde' tem sua origem na palavra inglesa 'bond', que significa bônus, título, obrigação. Essa palavra só existe no Brasil; esse meio de transporte, dependendo de suas características, recebe nomes como 'elétricos' em Portugal, 'tranvía' em países de língua espanhola e 'tran', 'trolley' ou 'streetcar' em países de língua inglesa."
   Em um texto publicado no jornal  "Jangada Brasil", do município de Palhoça em novembro de 1999 são contados fatos sobre os bondes mortuários, que sabemos que também existiram em Porto Alegre: "(...) Havia bondes mortuários com formatos especiais, preços tabelados conforme a classe, com o fim exclusivo de levar caixões de defunto para o cemitério. Os cheios de cortinas e safenas, plumas e tapetes, eram para os ricos. Para os pobres existia o franguinho d'água quase nu de adornos com umas modestas safenas, que voavam quando o veículo corria os trilhos. O bonde-misto, conduzindo ao mesmo tempo o defunto e os acompanhantes era ainda mais modesto. Para os remediados contava-se com um discretamente decorado, com laços e cortinas pretas que lhe dava um aspecto sinistro de morcego (...)". 
   Um outro texto que tem como título "BH 100- Lembranças dos Bondes", apresenta  pequenos relatos de aventuras e vivências na época dos bondes. A partir do título da publicação fica fácil deduzir que são textos sobre a cidade de Belo Horizonte. Muitas destas memórias são de antigos "moleques" lembrando de suas traquinagens de crianças, histórias que também são muito escutadas por nossa equipe quando recebemos visitas em nosso ônibus Memória Carris. Em um dos relatos, por exemplo, é dito: "(...) Para a turma de garotos da vizinhança, fãs de bolinha de gude, rodar pião, soltar papagaios, jogar benti-altas, mãe-da-rua, polícia e ladrão, pique-esconde e andar velozmente em carrinhos de rolimã, o bonde era um amigo permanente, companheiro temido nas brincadeiras de rua. 'Altas, lá vem o bonde' (...)". 
Outra história lembrada continua narrando molecagens: "(...) Nas lutas aladas entre papagaios de papel, a arma fatal importada do Rio de Janeiro, o cerol, pó de vidro colado à linha do carretel, cortava como faca as linhas dos oponentes. A preparação exigia vidro moído bem fino, misturado às colas artesanais. O bonde ajudava nesta tarefa: púnhamos cacos de vidro sobre os trilhos, e nos escondíamos no lote vago para assistir ao massacre dos mesmos pelas rodas do vagão enorme e barulhento, com seu peso descomunal. Depois era só recolher cuidadosamente o pó compacto. Resultado perfeito! (...)". 



terça-feira, 21 de março de 2017

Veridiano Farias: "O Teimoso"

   Semana passada recebemos aqui no setor um belo presente do Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul. Trata-se de um livro com artigos sobre práticas da Medicina ao longo da História do Rio Grande do Sul. Um dos textos conta a história de Veridiano Farias, o segundo negro formado em Medicina no nosso estado e o primeiro a se formar na UFRGS. Veridiano, além de médico, trabalhou na Cia. Carris como motorneiro e como músico do "Jazz Carris", conjunto musical formado por funcionários da empresa que fez sucesso em Porto Alegre na primeira metade do século XX.   
  Lendo a história de vida de Veridiano Farias, lembramos do grande número de colegas da Carris que trabalham nos ônibus da empresa (como motoristas e cobradores) e que conciliam trabalho, família (muitos com filhos) e os estudos. O sonho de um futuro melhor dá a estes colegas a força necessária para seguir dando conta de uma rotina muitas vezes extenuante.
   Nosso ex colega que tornou-se médico, é um exemplo da luta que muitos brasileiros vivem para  estudar e realizar seus sonhos. Veridiano nasceu na cidade de Rio Grande no ano de 1906. Neto de escravos, seu pai era estivador no porto e sua mãe dona de casa. Ainda criança veio morar em Porto Alegre com a família. Começou a estudar tarde, sendo que só terminou o ensino secundário (chamado de ginásio na época), em 1942 quando já tinha 36 anos.
   Veridiano sempre foi ligado a música, ainda pequeno aprendeu a tocar vários instrumentos musicais. Este conhecimento lhe foi muito útil como fonte de renda, pois trabalhou como músico em diferentes conjuntos da época. Foi amigo pessoal de artistas de renome da cena musical porto-alegrense como Lupcínio Rodrigues, Rubens Santos e Túlio Piva. Enquanto estudava, teve vários empregos além de manter as atividades de músico. Um deles foi de motorneiro da Carris.
  Conhecido por seus colegas como "O Teimoso", Veridiano fez três vestibulares para Medicina na UFRGS. Foi aprovado apenas no quarto, mas não obteve a média necessária para o curso. Decidiu então tentar a sorte em uma faculdade no Rio de Janeiro, onde foi aprovado. Mudou-se para a capital federal da época e sustentou-se como músico enquanto cursava os primeiros semestres da faculdade. No ano de 1946 conseguiu a sua transferência para a UFRGS, isto após escrever uma carta para o ex presidente Getúlio Vargas contando a sua história e falando sobre a  saudades que sentia da família, neste momento Veridiano era pai de duas crianças. O político se sensibilizou e usou sua enorme influência para que o nosso ex colega tivesse sua transferência aceita pela federal do Rio Grande do Sul.
  Em 15 de dezembro de 1951 Veridiano Farias formou-se em Medicina na UFRGS, o ex motorneiro havia realizado o seu sonho. Em seguida começou a clinicar como dermatologista no Hospital Colônia de Itapuã. Infelizmente nosso ex colega exerceu seu sonho de auxiliar as pessoas através da Medicina por pouco tempo, em 10 de agosto de 1952 Veridiano teve um enfarto e acabou falecendo.
  Através do exemplo de Veridiano Farias gostaríamos de homenagear todos nossos colegas da Carris que se desdobram de diferentes formas para manterem seus sonhos de obter uma formação melhor através do estudo. Desejamos que estes colegas consigam manter sua esperança viva e que possam alcançar seus objetivos!



Foto de Veridiano Farias no dia da sua formatura. 








    

quarta-feira, 8 de março de 2017

Há quarenta e sete anos os bondes se despediam de Porto Alegre!

  Dia oito de março é uma data importante na Cia. Carris. Um dos motivos é a comemoração do Dia Internacional da Mulher que é sempre lembrado na empresa com a realização de homenagens às colegas trabalhadoras. Outro motivo é a lembrança de que foi num dia oito de março a última vez que os bondes elétricos circularam pelas ruas de nossa cidade. 
 Há exatos quarenta sete anos, no dia oito de março de 1970, ocorreu a última viagem de bonde elétrico da Cia. Carris. Consultando o livro: "Memória Carris: Crônicas de uma História Partilhada com Porto Alegre", temos a seguinte descrição do ocorrido: 

"(...) O bonde circulou pela última vez em Porto Alegre, depois de 98 anos de serviço prestado à comunidade, em 8 de março de 1970. O dia foi um misto de luto, saudosismo e euforia. Trajando suas melhores roupas, pais, filhos, curiosos, ricos, pobres e pessoas das cidades vizinhas se acotovelavam na frente da sede da Carris, na Avenida João Pessoa, e nas paradas esperando a última viagem de bonde. Houve solenidade de despedida , à qual compareceram o Prefeito, o secretariado, autoridades civis, militares e eclesiásticas. O Sindicato dos Metroviários hasteou as bandeira do pavilhão a meio-pau, em sinal de luto. Circularam pela cidade, neste triste dia, as linhas G - Gasômetro, T - Teresópolis, e P - Partenon. Toda a população pode usufruir do serviço dos elétricos gratuitamente. Às 20h30min, o último elétrico foi recolhido ao depósito de bondes. Alguns motorneiros e tripulação choravam solitários na frente da sede da Carris (...)"*. 
  
    A partir do texto, podemos constatar que este foi um dia de muita emoção. Um misto de entusiasmo com o futuro e saudades e apego pelo passado que se despedia. Quando saímos com o nosso ônibus memória, muitas pessoas nos perguntam o porquê do fim da circulação dos bondes. Depois da leitura de vários textos e da conversa com pessoas que viveram aquela época, constatamos que a união de vários motivos diferentes justificaram a substituição total do sistema de bondes pelo uso de ônibus. Interesses econômicos  e a própria visão da população da época, que associava os bondes ao passado e o transporte rodoviário ao futuro, influenciaram nesta decisão. A verdade, entretanto, é que os bondes elétricos continuam muito presentes na lembrança dos porto-alegrenses mais antigos. 

*SILVA, Cinara Santos da/ MACHADO, João Timotheo Esmerio, "Memória Carris: Crônicas de uma História Compartilhada com Porto Alegre". Porto Alegre, Prefeitura Municipal, 1999. Pags; 75-76. 





Imagens da Despedida dos Bondes de Porto Alegre, oito de março de 1970. 


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Antigos nomes de ruas de Porto Alegre




      Encontramos em nosso acervo um livro intitulado: "Porto Alegre, a cidade e sua formação", de autoria de Clovis Silveira de Oliveira. Esta publicação de 1985, traz muitas informações sobre a história do desenvolvimento de Porto Alegre. Achamos particularmente interessante um capítulo dedicado aos antigos nomes de ruas do Centro Histórico de nossa cidade. 
   Existem muitas histórias curiosas envolvendo os lugares pelos quais passamos no nosso dia-dia, ao conhecer os antigos nomes de ruas do Centro, algumas destas histórias se tornam conhecidas. Utilizando o livro citado como fonte, iremos "contar" algumas destas histórias para os nossos amigos e leitores. 

"(...) Beco dos Guaranis -  (Rua General Vasco Alves): É a segunda que se formou em sentido transversal [à atual Rua dos Andradas]. Iniciava na Rua da Praia indo até a Praia do Riacho [próximo a atual Rua Washington Luiz]. Tinha esse nome devido a que no cruzamento com a Rua da Ponte (atual Rua Riachuelo), no antigo lugar do depósito de pólvora (1773), foi construído um quartel para sediar o 24º e o 25º Regimento de Milícias, ambos com efetivo de índios guaranis recrutados nas Missões por volta de 1824  [grifo meu]. Mais tarde esse beco tomou o nome de Rua da Guarda Municipal, também conhecida como Rua do Princípe. Após a Guerra do Paraguai, sua denominação foi mudada definitivamente para a Rua Gen. Vasco Alves (...).

Atual Rua Vasco Alves


"(...) Rua dos Pecados Mortais - Rua do Jogo da Bola - Rua dos Nabos a Doze- (Rua Gen. Bento Martins): Todos esses nomes foram usados na quinta transversal que iniciava na Praça do Pelourinho [na Rua dos Andradas, próximo a atual Igreja das Dores] e ia até a Praia do Riacho. É a que hoje conhecemos, em toda sua extensão, pelo nome de General Bento Martins, Barão de Ijuí, nascido em Cachoeira do Sul em 1818 e falecido em Uruguaiana em 1881. Essa rua teve a denominação oficial de Rua do Arroio, em 6 de junho de 1870, mas o trecho que iniciava na Rua da Praia e ia até a atual Riachuelo, foi conhecida como Rua dos Pecados Mortais devido ao aspecto moral das moradoras que aí ocupavam sete casinhas. Assim como o trecho entre a Rua Riachuelo e a Duque de Caxias foi conhecido por Rua do Jogo de Bola porque ali o comerciante Antônio Pereira da Silva instalou, no terreno do armazém de sua propriedade, uma espécie de jogo de bochas. O trecho que ia da Duque de Caxias à Rua do Arvoredo foi conhecido por Beco do Nabo a Doze, apelido de João Antônio da Silva, ali estabelecido com pequeno comércio onde vendia doze nabos por um vintém (...)". 

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Atual Rua Bento Martins


    "(...) Beco do Fanha - (Rua Caldas Junior) : Começava na Rua da Praia, perto do Largo da Quitanda (atual Praça da Alfândega) e ia até a Rua da Ponte (atual Riachuelo), onde existia uma pinguela para dar passagem por sobre as águas de uma fonte logo acima. Seu nome vem de um taberneiro que ali se instalou em uma das casas de Inácio Manoel Vieira. O Fanha, que nem fanha era, apenas falava com uma voz gutural abafada, chamava-se Francisco José de Azevedo. Por volta de 1870 o beco foi denominada de Rua Paissandu, em homenagem à vitória naval e terrestre no cerco da cidade uruguaia assim chamada, quando da Guerra de 1864/1865. Hoje essa rua se chama Caldas Junior (...)". 

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Foto rara do Beco do Fanha (atual Rua Caldas Junior) ainda no século XIX.



                                  
   "(...) Beco da Guarapa - (Trecho da Rua Gen. Câmara):  Assim se denominava a Rua da Ladeira [atual Rua General Câmara] além da Rua da Praia, em direção ao rio. É que naquele trecho se instalou na esquina João Inácio Teixeira com seu armazém que vendia guarapa. O beco também foi conhecido pelo nome de Beco do João Inácio. Hoje, esse beco mais a antiga Rua do Ouvidor ou Ladeira, são denominados oficialmente de Rua General Câmara, em homenagem ao grande militar, 2º Visconde de Pelotas (...)".* 

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Fotografia rara da antiga Rua da Ladeira (atual Rua Gen. Câmara) no século XIX. É possível visualizar trecho após a Rua da Praia, quase as margens do Guaíba.


* Fonte: Oliveira, Clovis Silveira "Porto Alegre: a cidade e a sua formação". Gráfica e Editora Norma, 1985. Porto Alegre, RS. 
    


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A greve de ônibus de 1955 e o texto de Josué Guimarães

   Realizando uma pesquisa no Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho, encontramos um texto que é uma preciosidade:  uma coluna do jornal "A Hora", assinada pelo escritor e jornalista Josué Guimarães. O texto da coluna trata sobre a greve do transporte público de 1955 (o que nos interessa, aqui no Memória Carris) e é um exemplo da inteligência e talento do autor. 
    Josué Guimarães (1921-1986) é considerado um dos grandes jornalistas e escritores brasileiros. Autor de romances gaúchos fundamentais como "A Ferro e Fogo", "Camilo Mortága" e "Dona Anja", entre outros, Josué Guimarães foi jornalista de diferentes órgãos de imprensa do Brasil e o vereador de Porto Alegre mais bem votado na eleição de 1951. Um homem do seu tempo, atuante nas questões políticas e sociais, o autor tem opiniões bastante claras, que ficam evidentes no texto que iremos transcrever a seguir:

"Conversa do Dia: ônibus e eleições"
                        
                                                            Josué Guimarães

  Por incrível que pareça, a greve dos proprietários de empresas particulares de ônibus já teve o signo das eleições de outubro. Aos políticos se torna extremamente difícil pensar em termos não eleitorais, tanto mais que seus nomes começam a aparecer como candidatos a postos eletivos. O governador Ildo Meneghetti, por exemplo, achou as tabelas - tanto da cidade quanto as intermunicipais - excessivamente altas e injustas, conquistando por isso o aplauso dos trabalhadores através de suas entidades de classe. Entretanto no Estado a coisa já foi consumada com a publicação pelo Diário Oficial , das tabelas majoradas. Ao DAER - em que pese o sorriso e as promessas do governador - cabe cumpri-las. No Município, o prefeito substituto achou por bem negar autorização para os aumentos pedidos originando-se daí a greve que durou pouco, porque era greve de opereta e opereta de patrão.
   Vale notar, que quando se trata de greve de patrão ninguém fala em 9070, em repressão policial, em Ministério do Trabalho, em prisões e em outras medidas habituais quando as greves são dos empregados. Tanto mais estranhável quando sabemos na direção da Inspetoria dos Serviços Públicos Concedidos um cidadão que foi Delegado de Ordem Política e Social e sempre agiu drasticamente em greves anteriores. Desta vez as conversações foram amigáveis, pois eram patrões. Então o prefeito solucionou o impasse de maravilhosa maneira: das 23 linhas de micro-ônibus postulantes de melhores tarifas manteve em 22 os preços que deram origem ao movimento paradista. Uma só - da Independência - viu a tabela reduzida em 50 centavos, e justamente aquela que serve uma linha granfina sabidamente.  Enquanto aos ônibus  aumentou a linha da Ponta do Aterro, manteve a tabela pedida em cinco e propôs a redução de 50 centavos em 16 linhas, das quais 10 da Carris, isto é, a maioria das linhas que teriam a majoração diminuída pertence ao município, que termina pagando a diferença, como até agora. Nas outras, incluido-se as linhas Farrapos 2 e 3, dividiu os preços em CR$2,00 até determinado ponto e CR$2,50 até o fim da linha, o que dá no mesmo e atenta contra os mais pobres que buscam casas e terrenos mais baratos nos fins das linhas. 
  Na Câmara os aplausos foram gerais, incluindo-se a bancada trabalhista que não teve uma palavra em defesa da tabela proposta e aprovada pelo próprio sr. Manuel Vargas. 
   De tudo se conclui o seguinte: não convém dar a impressão ao povo de que se está aumentando os preços. Depois das eleições estudaremos com carinho este e outros assuntos delicados. Quando entrar no Legislativo o reexame das Tabelas do DATC a corrida contra o aumento será impressionante. Noventa por cento dos vereadores são candidatos à volta. O Município que leve a breca. Se aos particulares se concede algum aumento a fim de não irem a falência, ao Município compete esperar sempre 'para depois das eleições'. E assim vamos indo a bancarrota e a matroca. 
  Que eu saiba não existe nenhum levantamento sério por parte dos órgãos sérios da Prefeitura quanto ao custo real das passagens da sua frota de ônibus. Tudo e do mais ou menos. E se chegarem a conclusão de que as tabelas são baixas, mesmo assim entenderão que a melhor política é mantê-las  com medo de enfrentar a grita popular. Mas a verdade é que no Município somos o reflexo da inflação nacional do Sr. Gudin e de outras eminentes personalidades que desgraçam este país. Sacrificar ainda mais os cofres do Município com receio de cair em desgraça popular é demagogia e da barata, me perdoem."*

* Jornal "A Hora", 24 de abril de 1955, página 10. 


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