segunda-feira, 3 de junho de 2013

Treinando o equilíbrio

        Encontramos em nosso acervo um trabalho escrito por Celso Gonzaga Porto. Trata-se de um texto com várias fotografias que retratam a "Despedida dos bondes", a última viagem de bonde ocorrida em 8 de março de 1970. O senhor Celso Gonzaga Porto inicia o texto contando um pouco da sua relação com a Cia. Carris. Ele nos conta que seu pai foi funcionário da Carris entre 1947 e 1978, e que ele mesmo trabalhou na Companhia durante a sua juventude. Além do relato sobre o último dia em que os bondes circularam por Porto Alegre, o senhor Celso apresenta no final de seu trabalho três crônicas bem interessante que retratam, de certa forma, como era o cotidiano nos bondes. Iremos transcrever uma delas, intitulada "Treinando o equilíbrio".      
"Treinando o Equilíbrio"

"No vocabulário da Carris, o condutor não era quem conduzia o bonde, mas sim quem cobrava a passagem entre os usuários de cada viagem. Aliás, para entender esta história, não é demais lembrar como era a hierarquia no bonde. Motorneiro era o profissional que conduzia o bonde e que, junto com o condutor, era fixo no veículo. Acima deles estava o fiscal atendendo seu trabalho por setor, na conferência do trabalho do condutor e, mais acima deste na hierarquia, estavam inspetores e sub-inspetores, pontuados em zona central. Para complementar os ingredientes da história, vale dizer que todo condutor, quando em treinamento, era chamado de 'carancho' e trabalhava com o apoio de um condutor veterano. 
Certa ocasião, um pobre 'carancho', no seu primeiro dia de trabalho, foi escalado para fazer um treinamento acompanhado de um condutor veterano, que era também muito moleque. Para maior desgraça do infortunado aprendiz, o bonde em que trabalhariam naquele dia era um 'gaiola', assim  designado por constituir-se de uma carroceria apoiada em apenas um truque (conjunto de quatro rodas), preso à carcaça por um pino central. Esta constituição, como se pode imaginar, fazia com que o bonde balançasse sobre os trilhos, o que tornava um martírio viajar em pé naquele verdadeiro 'liquidificador'. Após apresentados aprendiz e instrutor, travou-se mais ou menos o seguinte diálogo: 
- Hoje vais fazer apenas o que fazem os aprendizes em seu primeiro dia de trabalho - disse o Instrutor. 
- Pois não. E o que é? - indagou o carancho.
- Vais treinar apenas o equilíbrio. 
- E como é isso?
- É simples. Nós vamos trabalhar no bonde 'gaiola'. Deixa que eu cobro as passagens e tu deves permanecer de pé durante toda manhã sem te agarrares em nada apenas treinando apoio nas pernas. Para isso, deverás passar o tempo todo no meio da plataforma traseira. 
Para se dar uma ideia a quem não teve o privilégio de viajar em um bonde gaiola, pode se dizer que estar de pé no meio de uma plataforma traseira sem nenhum apoio, equivalia a se manter sobre um cavalo xucro sem o apoio das mãos nas rédeas ou na crina. 
Após quaro horas de trabalho no turno da manhã, o carancho apresentou-se ao inspetor no terminal da Praça XV. 
- E aí, como foi o treinamento desta manhã? - perguntou o inspetor. 
- Ah, foi muito penoso - respondeu o carancho. 
- Mas o que achaste de mais trabalhoso? - voltou a interpelar o inspetor. 
- Esse treinamento de equilíbrio. 
O inspetor olhou para o carancho franzindo a testa.
-Treinamento de equilíbrio? Como foi isso?
E o carancho passou ao relato de todas as peripécias vividas naquela manhã, que o havia deixado com as pernas bambas. O inspetor, já conhecedor da fama daquele condutor veterano, balançou a cabeça, bateu no ombro do carancho e o consolou:
- Esta ótimo. Parece que a primeira etapa já foi vencida. Descanse bastante porque ainda tem o turno da tarde. 
E o carancho lá se foi. Faceiro por agradar ao superior e preocupado se conseguiria, até o final do dia, suportar aquele massacre. O que não se sabe até hoje é se o inspetor advertiu o veterano para que o aliviasse no segundo turno ou se a própria consciência do condutor moleque se penalizou da ingenuidade do pobre carancho. 



*Bonde Gaiola fazendo a linha Duque. 







Um comentário:

Girardi,César disse...

Olá, meu pai, Laudelino Ribeiro foi motorneiro de um bonde gaiola, em Porto Alegre, por um curto espaço de tempo na década de 40, acredito que por volta de 1946- 1947.
Existe algum local onde eu possa encontrar o registro de sua passagem pela Cia Carris?

Um abraço

email: sundayy17@gmail.com

César G. Ribeiro